A CABEÇA QUE SUSSURRA - HISTÓRIA DE TERROR EM PORTUGUÊS - BREDEVOORT VAN DEN BERG
A CABEÇA QUE SUSSURRA - HISTÓRIA DE TERROR EM PORTUGUÊS - BREDEVOORT VAN DEN BERGUma patrulha militar perde-se na selva da Nova Guiné durante a Segunda Guerra Mundial. O que encontram não é um inimigo convencional, mas um vale onde as árvores exibem rostos esculpidos na casca e de cada estaca pende um cesto com uma cabeça que os observa. E quando essas cabeças começam a falar, o território conhecido desvanece-se para dar lugar a algo muito mais antigo e perturbador.A narrativa conduz-nos por um caminho de crescente tensão psicológica, onde o verdadeiro horror reside naquilo que não vemos, mas que pressentimos. Van den Berg escreve com uma economia de meios que reforça a claustrofobia da experiência: as descrições são precisas, os diálogos contidos, e o silêncio que se instala entre as palavras acaba por pesar mais do que qualquer grito. Este não é um romance de sustos fáceis ou de reviravoltas previsíveis. É uma exploração da memória, da identidade e da forma como o passado pode exigir um preço que não estamos dispostos a pagar.Para quem gosta de terror sobrenatural com raízes no realismo histórico, de weird fiction que desafia a lógica e de suspense psicológico que se prolonga muito para além da última página, este livro é uma aposta segura. A prosa de Van den Berg tem a qualidade de uma escrita que se lê com fluidez, mas que nos faz parar de tempos a tempos para absorver o que acabámos de ler. E, quando fechamos o livro, a sensação de que algo ficou connosco é inevitável.A edição portuguesa chega num momento em que o género procura vozes originais, e Bredevoort van den Berg afirma-se como um nome a ter em conta. Leia «A Cabeça que Sussurra» e descubra um dos lançamentos mais inquietantes do ano, uma história que se instala no tutano e que nos recorda que há lugares onde o tempo não corre como estamos habituados, e onde a espera é a única coisa que nunca acaba.«A cabeça no cesto abriu os olhos quando Hayes passou. Não os dois ao mesmo tempo. Primeiro o esquerdo, a pálpebra que se levantou com um estalido seco, depois o direito, mais devagar, como se o olho tivesse primeiro de se lembrar como olhar para um mundo que não via há mil anos.Hayes parou. A sua mão encontrou a sua espingarda húmida.O cesto pendia de uma estaca fincada no chão inclinada, não caída, apenas cansada, como um velho que ainda se mantém de pé mas já não sabe porquê. A fibra com que estava trançado tinha a cor do sangue velho, aquele castanho avermelhado que sobra quando toda a frescura desapareceu, quando a última recordação do calor também se evaporou. Os padrões da trança pareciam as veias no interior de um pulso, a fina rede de algo que outrora viveu e ainda não esqueceu como bater.A cabeça lá dentro já não era jovem. O cabelo que deveria ter sido preto era grisalho e fino, e soltava‑se do couro cabeludo em pequenos flocos como as últimas folhas de uma árvore no inverno. A pele estendia‑se sobre os ossos como pergaminho, de modo que Hayes conseguia ver a sombra do crânio através dela, a superfície escorregadia do osso que nunca fora tocado pelo sol. Mas os dentes visíveis entre os lábios repuxados eram demasiado longos, demasiado brancos, demasiados para qualquer boca humana. Estavam dispostos em filas que não coincidiam, três filas onde devia haver duas, e as pontas eram afiadas como agulhas que apenas esperavam para espetar.»
Get it → bredevoortvandenberg.gumroad.com